Como se é paciente e crédulo quando se é jovem! A minha vida nesse tempo era horrível e eu nem sequer tinha consciência disso. O dinheiro que me rendiam as minhas longas, enfadonhas e fatigantes sessões de pose nos ateliers era por mim integralmente entregue em casa, e o tempo que não passava nua, entorpecida e dolorida pela imobilidade, para que me pintassem e desenhassem, passava-o em casa a coser à máquina, de costas dobradas e com os olhos fitos na agulha ajudando minha mãe no seu trabalho. À noite continuava a costurar até tarde, para me levantar mal começava a amanhecer, pois os ateliers ficavam longe e as sessões começavam cedo. Mas antes de partir para o trabalho fazia a minha cama e ajudava minha mãe a arrumar a casa. Eu era realmente infatigável, submissa, paciente e ao mesmo tempo sempre calma, alegre e tranquila, a alma isenta de inveja, de rancor ou de ciúme, cheia dessa doçura e dessa gratidão sem motivo que são a florescência espontánea da juventude. Não me apercebia da desoladora fealdade da minha casa. Uma enorme sala servia de atelier, com uma grande mesa ao centro, coberta de trapos. Havia mais trapos pendurados nos pregos colocados nas paredes sombrias e desbotadas e algumas cadeiras desmanteladas. Um quarto onde eu dormia com minha mãe numa cama de casal; mesmo por cima da minha cabeça, quando estava deitada, o tecto tinha uma grande mancha de humidade; quando estava mau tempo chovia-nos em cima. Tínhamos uma pequena cozinha escura recheada de pratos e panelas, que minha mãe por desmazelo nunca chegava a lavar completamente. Não me apercebia da vida de sacrifício que levava, sem divertimentos, sem amor, sem amizade.



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