
Continuei a ser modelo como ele me aconselhara. Mas os outros pintores não tinham por mim a mesma amizade e eu não me sentia disposta a falar-lhes dos meus problemas nem da minha vida.
Nessa altura, aliás, muito mais imaginária do que real, feita de sonhos, de aspirações e de esperanças, visto que nada de extraordinário me acontecia.
2
Foi assim que continuei a ser modelo, apesar de minha mãe resmungar constantemente que por esse processo eu nunca chegaria a ganhar coisa que se visse. No decurso deste período da minha vida minha mãe esteve constantemente de mau humor, e, apesar de ela o não dizer claramente, eu bem compreendia que a causa da sua má disposição era eu. Não é esta a primeira vez que o digo: minha mãe contava com a minha beleza como se conta com um capital seguro. Para ela o ofício de modelo não passava de um ponto de partida; depois disto, segundo a sua expressão habitual, “uma coisa traria outra”. A continuação deste trabalho humilde e mal remunerado, ao mesmo tempo que a enchia de amargura, tornava-a rancorosa contra mim, como se o facto de eu não ser ambiciosa a privasse de lucros seguros.
Evidentemente que não me dizia isto. Mas dava-mo constantemente a perceber pelos seus modos desagradáveis, as suas alusões, os seus suspiros, os seus olhares melancólicos e outros meios de expressão igualmente significativos. Era uma espécie de chantagem constante, a razão pela qual muitas raparigas, fundamentalmente honestas, martirizadas sem piedade nem tréguas por mães ambiciosas e desiludidas, acabam por fugir de casa e entregar-se ao primeiro homem que encontaram, unicamente para se libertarem desse tormento. Eu bem sei que minha mãe fazia isto por amor de mim. Mas esse amor era como os dos aldeões para com as galinhas: no dia em que elas deixam de pôr ovos começam imediatamente a perguntar a si próprios se não terá chegado o momento de lhes torcer o pescoço e as meter na panela.
