
— Onde quer que a deixe? — perguntou-me fechando a porta.
Notei que tinha a voz doce e tive a impressão de que ela me agradava, sem no entanto deixar de notar nela qualquer coisa de falso e de afectado. Acrescentou:
— Bem… para fazer horas vamos dar uma volta… Ainda é cedo! Depois levá-la-ei aonde você quiser.
E o carro partiu.
Saímos do meu bairro e contornámos as muralhas ao longo da avenida exterior; em seguida entrámos numa estrada larga e comprida, ladeada de casebres e de armazéns; por fim chegámos ao campo. Então desatou a correr como doido por uma estrada recta, entre áleas de plátanos. De vez em quando dizia-me sem me olhar, mostrando o conta-quilómetros:
— Agora vamos a oitenta… noventa… cem… cento e vinte… cento e trinta.
Queria impressionar-me com estas velocidades, mas eu estava sobretudo inquieta porque tinha de ir posar e receava que um incidente qualquer nos obrigasse a parar o carro em algum descampado. De repente travou. Bruscamente desligou o motor, voltou-se para mim e perguntou:
— Quantos anos tem?
— Dezoito anos — respondi.
— Dezoito anos… julguei que tivesse mais!
Tinha realmente uma maneira de falar afectada, e por vezes, para sublinhar uma palavra, baixava o tom como se falasse consigo próprio ou dissesse um segredo.
— Como se chama?
— Adriana. E você?
— Gino.
— O que faz? — perguntei-lhe.
— Sou comerciante! — respondeu sem hesitar.
— E o carro ê seu?
Olhou o carro com uma espécie de desdém e declarou:
