
— É meu, sim.
— Não acredito! — disse-lhe eu com toda a franqueza.
— Não acredita? Estão não é meu! — repetiu sem perder a linha. — Não está má! E porquê?
— Você é o chauffeur?
Ele fingiu um espanto irónico cada vez maior.
— Mas, na verdade, você diz-me coisas fantásticas! Vejam bem: chauffeur! Mas que a fez pensar isso?
— As suas mãos.
Olhou as mãos sem corar nem se desconcertar e confessou:
— Bom! Nada se pode esconder a esta menina. Mas que argúcia! É verdade, sou chauffeur. E agora, está contente?
— Nada mesmo! — respondi duramente. — Quero apenas pedir-lhe que me leve para a cidade o mais depressa possível.
— Mas porquê? Está zangada comigo por eu ter dito que era comerciante?
Estava realmente irritada com ele. Nem eu sabia bem porquê:
— Não falemos mais nisso. Leve-me!
— Mas era uma brincadeira! Então já não se pode brincar?
— Não gosto destas brincadeiras!
— Que mau génio! Eu pensei: é possível que esta rapariga seja alguma princesa… se ela descobre que sou apenas um pobre chauffeur, nem se digna olhar-me… vou dizer-lhe que sou comerciante.
As suas palavras foram astuciosas, porque, lisonjeando-me, faziam-me compreender os seus sentimentos a meu respeito. Por outro lado ele pronunciava-as com uma mistura de graça e de enfatuamento que acabaram de me conquistar.
— Não sou qualquer princesa — respondi. — Ganho a minha vida como modelo, como você ganha a sua como chauffeur.
— Que quer dizer isso de modelo?
— Vou aos ateliês dos pintores. Ponho-me nua e eles pintam-me ou desenham-me.
— Mas você não tem mãe? — perguntou-me com ênfase.
— Com certeza, porquê?
— E a sua mãe consente que se ponha toda nua diante dos homens?
Eu nem sequer tinha sonhado alguma vez que pudesse haver algum mal neste trabalho.
