Nada disse a minha mãe, porque pensava, muito acertadamente, que ela nunca aceitaria que eu me ligasse a um homem pobre e de futuro modesto. Na manhã seguinte veio buscar-me como me prometera, e nesse dia limitou-se a levar-me directamente ao atelier. Nos dias seguintes, logo que o tempo começou a ficar bom, levou-me por vezes para qualquer estrada dos arrabaldes, ou para qualquer rua pouco frequentada da periferia, a fim de conversarmos à vontade, mas sempre de maneira respeitosa e conversas honestas e sérias que muito me agradavam. Eu era nesse tempo muito sentimental: tudo o que traduzisse bondade, virtude, moral e afeição de família tocava-me singularmente e comovia-me até às lágrimas, lágrimas que me corriam livremente dando-me uma sensação embriagadora e ardente de alívio, de simpatia e de confiança. Foi assim que pouco a pouco me convenci de que Gino era absolutamente perfeito.

“Realmente — pensava eu às vezes — … que defeitos tem ele? É novo, é belo, é inteligente, é honesto, é sério, não se lhe pode apontar o mais pequeno defeito.” Isso admirava-me porque não é fácil encontrar a perfeição, e o conhecê-la quase me afligia. “Que homem é este que, depois de perscrutado, não revela a menor mácula, nem a menor falta?”

Na verdade, eu apaixonara-me sem dar por isso. E agora sei que o amor tem uns óculos através dos quais um monstro nos parece maravilhoso.

Estava de tal maneira apaixonada que a primeira vez que ele me beijou, na estrada onde tivera lugar a nossa primeira conversa, experimentei uma tal sensação que se poderia traduzir como a satisfação natural de um velho anseio, há muito desejado. Contudo, a irresistível espontaneidade com que as nossas bocas se uniram assustou-me um pouco, porque eu pensava que de futuro os meus actos já não dependiam de mim, mas da força irresistível que me atraía com tão doce violência para os seus braços. No entanto, fiquei plenamente descansada, porque logo que nos separámos ele disse-me que nos podíamos considerar daí em diante como noivos.



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