
Era exactamente o que eu pensava e não sabia dizer até que ponto me tornava feliz saber que ele pensava como eu, ou fingia pensar.
— Tem razão — disse-lhe. — Mas não quero que faça uma ideia errada de minha mãe. Foi justamente por ela gostar muito de mim que quis que eu fosse modelo.
— Ninguém o diria! — retorquiu com um ar seriamente comovido e indignado.
— Sim! Ela gosta de mim! Somente, há certas coisas que ela não compreende.
Continuámos a falar de tudo ou pouco, sentados, atrás do pára-brisas, dentro do carro parado. Lembro-me de que estávamos em Maio, que o ar era doce e que as sombras dos plátanos pareciam brincar sobre a estrada até perder de vista.
Ninguém passava, salvo raros automóveis a toda a velocidade. O campo em redor, cheio de sol e muito verde, estava tão deserto como a estrada. Por fim olhou o relógio e disse-me que íamos voltar para a cidade. Durante todo este tempo ele só me tinha pegado na mão, e mesmo isso apenas uma vez. E eu, que esperava que ele tentasse pelo menos beijar-me, estava ao mesmo tempo decepcionada e contente de tanta reserva. Decepcionada porque ele me agradava e não podia deixar de sentir uma grande atracção pela sua boca fina e vermelha quando a olhava. Contente porque a sua atitude confirmava a ideia que tinha a seu respeito, de que era um rapaz sério como eu desejava que ele fosse.
Conduziu-me até ao atelier e disse-me que, a partir desse dia, se eu estivesse na paragem do eléctrico a uma certa hora, ele me traria no seu carro; a essa hora nada tinha que fazer.
Aceitei de boa vontade, e as minhas longas horas de pose pareceram-me mais curtas naquele dia. Parecia que a minha vida tinha tomado um rumo e sentia-me contente de poder pensar nele sem remorsos e sem ressentimentos, como se pensa num homem que não só nos agrada fisicamente, mas também pelas qualidades de carácter que eu considerava essencial que ele fosse possuidor.
