
— Mamã, estou noiva!
Vi a sua face enrugar-se com uma contracção como se tivesse sentido um fio de água gelada correr-lhe pelas costas abaixo.
— E de quem? — perguntou.
— De um rapaz que conheci há uns dias.
— Que faz ele?
— É chauffeur.
Gostaria de ter acrescentado mais alguma coisa, mas ela não me deu tempo. Afastou-se da máquina e. saltando da cadeira, agarrou-me pelos cabelos:
— Ficaste noiva sem nada me dizeres! E com um chauffeur? Coitada de mim! Tu vais ser a minha morte.
Gritando, ela tentava esbofetear-me. Eu protegia a cara com as mãos e acabei por me escapar, mas ela seguiu atrás de mim. Corri à volta da mesa que ocupava o centro da sala, enquanto ela me perseguia com lamentações de desespero. Eu estava completamente apavorada ao ver o seu rosto magro virado para mim com uma espécie de fúria dolorosa.
— Eu mato-te! — gritava. — Desta vez mato-te! — Cada vez que ela dizia “mato-te” dir-se-ia que a sua raiva aumentava e que ela ia pôr em prática as suas ameaças. Eu estava no topo da mesa e vigiava os seus gestos porque naquele momento ela era capaz senão de me matar, pelo menos de me ferir com a primeira coisa que apanhasse à mão. Com efeito a certa altura brandiu a grande tesoura de costura; só tive tempo de me virar e logo a tesoura voou pelo ar e foi bater na parede. O seu próprio gesto assustou-a. Bruscamente sentou-se junto da mesa, com o rosto entre as mãos, e teve uma crise de lágrimas nervosas entrecortada por ataques de tosse, onde havia mais raiva que dor. Ouvia-a dizer por entre lágrimas:
— E eu que tinha tantos planos para ti!… Eu que te via rica… com a tua beleza… E logo te foste comprometer com um esfomeado!
