
— Mas ele não é um esfomeado — interrompi timidamente.
— Um chauffeur! Um chauffeur! — repetia ela levantando os ombros. — Tu não passas de uma desgraçada e acabas por me desgraçar a mim também!
Pronunciou lentamente estas palavras como para saborear a sua amargura.
— Vai casar contigo e tu serás a sua criada primeiro e depois a criada dos teus filhos… assim que tudo acabará!
— Casaremos logo que ele tenha dinheiro suficiente para comprar um carro! — declarei, anunciando um dos vários planos de Gino.
— Veremos!… Mas não o quero cá metido! — gritou bruscamente, voltando para mim a cara coberta de lágrimas. — Não o quero ver! Faz o que quiseres… encontra-te com ele lá fora, as não o metas aqui!
Nessa noite fui-me deitar sem jantar, muito triste e muito desencorajada. Mas percebi que se minha mãe se portava comigo desta maneira era por gostar de mim e por ter feito para o meu futuro não sei que planos que o meu noivado com Gino deitava por terra. Mais tarde, quando compreendi quais eram esses planos, não senti coragem para a condenar. Ela não tinha recebido da sua vida honesta e laboriosa outras recompensas que não fossem amarguras, tormentos e miséria. Que admira que sonhasse para a sua filha uma sorte completamente diferente?
Devo acrescentar que se tratava talvez não tanto de planos, mas mais propriamente de sonhos vagos e cintilantes que podia acalentar sem muitos remorsos precisamente por serem vagos e cintilantes. Mas isto é uma suposição. Pode muito bem ser que, pelo contrário, a minha mãe, por um desvio inveterado de consciência, tenha realmente decidido encaminhar-me um dia para o caminho que fatalmente eu iria tomar sozinha. Se digo estas coisas não é por rancor contra minha mãe, mas porque ainda hoje não sei bem o que pensava ela então e porque a experiência me ensinou que se pode pensar e sentir ao mesmo tempo as coisas mais diferentes sem lhes notar a contradição.
