
Quando minha mãe se cansou de me tecer louvores, o pintor, sem uma palavra, dirigiu-se para um monte de cartões empilhados numa cadeira, folheou-os e voltou com uma gravura colorida, que mostrou a minha mãe dizendo-lhe naturalmente :
— Aqui tens a tua filha.
Afastei-me do calor da salamandra para vir ver a gravura.
Representava uma mulher nua, estendida numa cama coberta de ricos tecidos. Para além da cama via-se um reposteiro de veludo, e nas pregas desse reposteiro, suspensos no ar, dois meninos alados que me pareceram ser dois pequenos anjos.
Efectivamente, aquela mulher parecia-se comigo. No entanto, e apesar de estar nua, por causa dos tecidos e dos anéis que tinha nos dedos, depreendia-se que devia ter sido uma rainha ou uma grande dama, enquanto que eu não passava de uma pobre rapariga do povo. A princípio minha mãe não compreendeu e ficou a olhar para a gravura com ar aparvalhado. Depois, de repente, pareceu ter descoberto a semelhança e gritou, quase sufocada:
— Não há dúvida alguma! É ela! Vê como eu tinha razão? De quem se trata?
— De Dánae — respondeu o pintor a sorrir.
— E quem é Dánae?
— Dánae é uma divindade pagã…
Minha mãe, que esperava o nome de uma pessoa que tivesse realmente existido, ficou desorientada.
