Mesmo mais tarde, quando a intimidade se estabeleceu entre nós, continuou sempre a tratar-me gentilmente, com respeito, não como se eu fosse uma simples coisa, mas já como uma pessoa. Senti mediatamente uma grande simpatia por ele, e talvez fosse possível que me tivesse apaixonado simplesmente devido à sua amabilidade e à amizade com que me tratava. Mas ele nunca teve para comigo a mais pequena familiaridade: para mim foi sempre não um homem mas apenas um pintor, e durante todo o tempo em que posei para ele as nossas relações mantiveram-se tão distantes e tão correctas como no primeiro dia.

Quando minha mãe se cansou de me tecer louvores, o pintor, sem uma palavra, dirigiu-se para um monte de cartões empilhados numa cadeira, folheou-os e voltou com uma gravura colorida, que mostrou a minha mãe dizendo-lhe naturalmente :

— Aqui tens a tua filha.

Afastei-me do calor da salamandra para vir ver a gravura.

Representava uma mulher nua, estendida numa cama coberta de ricos tecidos. Para além da cama via-se um reposteiro de veludo, e nas pregas desse reposteiro, suspensos no ar, dois meninos alados que me pareceram ser dois pequenos anjos.

Efectivamente, aquela mulher parecia-se comigo. No entanto, e apesar de estar nua, por causa dos tecidos e dos anéis que tinha nos dedos, depreendia-se que devia ter sido uma rainha ou uma grande dama, enquanto que eu não passava de uma pobre rapariga do povo. A princípio minha mãe não compreendeu e ficou a olhar para a gravura com ar aparvalhado. Depois, de repente, pareceu ter descoberto a semelhança e gritou, quase sufocada:

— Não há dúvida alguma! É ela! Vê como eu tinha razão? De quem se trata?

— De Dánae — respondeu o pintor a sorrir.

— E quem é Dánae?

— Dánae é uma divindade pagã…

Minha mãe, que esperava o nome de uma pessoa que tivesse realmente existido, ficou desorientada.



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