Para esconder a sua confusão começou a explicar-me com grandes gestos que eu tinha de me pôr na posição que o pintor indicasse, deitada como a mulher da gravura, por exemplo, ou então de pé, ou sentada, e conservar-me imóvel, sempre na mesma posição, durante todo o tempo do trabalho dele. Rindo, o pintor declarou que minha mãe conhecia o ofício muito melhor do que ele próprio. E logo minha mãe, cheia de vaidade, desatou a falar dos tempos em que era modelo e todos os artistas de Roma a disputavam e lhe elogiavam as formas, lamentando amargamente o facto de ter abandonado esse trabalho. Entretanto, o pintor tinha-me feito estender num sofá ao fundo do atelier, indicara-me a posição, dobrando-me ele próprio as pernas e os braços para lhes dar a atitude requerida. Tudo isto foi feito com uma delicadeza meditativa e distraída. Como se na realidade já me estivesse a ver tal qual pretendia pintar-me. Depois, enquanto minha mãe continuava infatigavelmente a sua conversa. Começou a desenhar numa tela branca que pusera num cavalete. Minha mãe, percebendo que ele já nem sequer a ouvia. Absorvido pelo seu trabalho, perguntou-lhe:

— Quanto tenciona pagar à minha filha por cada hora de pose?

O pintor disse um preço qualquer sem levantar os olhos da tela. Minha mãe nem se dignou responder-lhe ou discutir com ele. Pegou na minha roupa, que estava nas costas de uma cadeira, e atirou-me violentamente com ela, ordenando:

— Veste-te! O melhor que temos a fazer é irmo-nos embora…

— Que mosca te mordeu? — interrogou o pintor, estupefacto, parando de desenhar.

— Nada. Nada! — disse minha mãe, que parecia estar cheia de pressa. — Vamos, Adriana. Temos imenso que fazer e não podemos perder tempo!

— Que diabo! — exclamou o pintor. — Se tens uma proposta para me fazer, diz do que se trata e deixa-te de histórias…

Então minha mãe lançou-se numa discussão interminável, gritando que ele era completamente idiota se pensava que podia pagar-me uma ridicularia daquelas, que se não tratava de um destes modelos velhos que a ninguém interessam, mas sim de uma bela rapariga de dezasseis anos, que posava pela primeira vez.



4 из 407