
— A tua mãe fala sempre assim aos gritos?
— Minha mãe gosta muito de mim — respondi.
— Pois olha — disse ele tranquilamente, continuando a desenhar. — Cá, para mim, do que ela gosta muito é de dinheiro…
— Oh! Não, isso não é assim! — respondi vivamente.
— De quem ela gosta acima de tudo é de mim. Mas tem pena que eu tenha nascido pobre e gostava de me ver ganhar a vida largamente.
Quis relatar pormenorizadamente esta história do pintor porque esse foi o meu primeiro dia de trabalho, se bem que eu tivesse acabado por escolher um ofício inteiramente diferente, e também para mostrar como o seu procedimento indicava o seu carácter e os seus sentimentos para comigo.
Terminada a minha hora de pose fui ter com minha mãe a uma leitaria onde tínhamos marcado encontro. Perguntou-me como se tinha passado a sessão e obrigou-me a relatar-lhe minuciosamente todas as palavras do pintor, que era, aliás, pouco falador. Finalmente disse-me que eu precisava de ter os olhos bem abertos. Que talvez esse pintor não tivesse más intenções a meu respeito, mas que a maioria dos artistas tentava sempre tornar-se amante dos seus modelos, quando valia a pena, é claro. Ora era preciso que eu repudiasse energicamente qualquer proposta desse género.
— Nenhum deles tem onde cair morto — explicou-me e nada há de bom a esperar deles. E tu, com a beleza que Deus te deu, podes aspirar a coisa muito melhor…
Era a primeira vez que minha mãe se me dirigia nestes termos. Mas ela falava com a segurança de uma pessoa que se refere a coisas longamente meditadas.
