Quando minha mãe quer impor a outras pessoas o seu ponto de vista usa sempre a táctica da gritaria, como se realmente estivesse possuída de uma violenta cólera; eu, que a conheço como às minhas mãos, sei perfeitamente que aquilo não passa de um processo; grita como as regateiras do mercado quando o comprador lhes faz uma oferta que elas consideram baixa. E este processo dá sempre resultado, especialmente com as pessoas que, pela sua formação, não podem responder aos seus gritos com gritos semelhantes. É com essas, aliás, que ela emprega mais vezes o sistema.

Com o pintor também não falhou. Enquanto minha mãe se esganiçava cada vez mais, ele sorria, e apenas fazia de vez em quando um vago gesto para a interromper. Por fim, aproveitando uma oportunidade em que minha mãe se calara durante alguns momentos para respirar, perguntou-lhe calmamente quanto pretendia que ele me pagasse. Mas minha mãe não lhe respondeu imediatamente. Atirou este argumento que ninguém podia esperar:

— O que eu gostava de saber era quanto esse que pintou o quadro que acaba de nos mostrar pagou ao seu modelo!

O pintor desatou a rir:

— Mas o que tem uma coisa a ver com a outra? Os tempos mudaram muito de então para cá. Ele deve ter-lhe dado em troca uma boa garrafa de vinho, talvez um par de luvas, não sei…

De novo minha mãe ficou tão desorientada como quando ele lhe tinha dito que a gravura representava Dánae. Eu compreendia que o pintor estava a divertir-se à sua custa. Mas era sem maldade, e minha mãe não se apercebeu disso. Desatou novamente a gritar, chamando-lhe miserável avarento e exaltando a minha beleza sem par. Depois, de repente, pareceu acalmar-se e disse-lhe a quantia que entendia que devia pagar-me, ou melhor, que ela queria que me pagasse.



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