
A maior parte ele tinha lido nos livros, mas iria contar como se tivesse vivido pessoalmente. Ela nunca ia saber a diferença, porque não sabia ler livros.
O velho, entretanto, insistiu. Falou que estava cansado, com sede, e pediu um gole de vinho ao rapaz. O rapaz ofereceu sua garrafa; talvez o velho ficasse quieto.
Mas o velho queria conversar de qualquer maneira.
Perguntou que livro o rapaz estava lendo. Ele pensou em ser rude e mudar de banco, mas seu pai havia lhe ensinado o respeito pelos mais velhos. Então estendeu o livro para o velho, por duas razões: a primeira é que não sabia pronunciar o título. E a segunda era que, se o velho não soubesse ler, ia ele mesmo mudar de banco para não sentir-se humilhado.
— Humm… — disse o velho, olhando o volume por todos os lados, como se fosse um objeto estranho. — É um livro importante, mas é muito chato.
O rapaz ficou surpreso. O velho também lia, e já lera aquele livro.
E se o livro era chato como ele dizia, ainda dava tempo de trocar por outro.
— É um livro que fala o que quase todos os livros falam — continuou o velho. — Da incapacidade que as pessoas têm de escolher seu próprio destino. E termina fazendo com que todo mundo acredite na maior mentira do mundo.
— Qual é a maior mentira do mundo? — indagou surpreso o rapaz.
— É esta: em determinado momento de nossa existência, perdemos o controle de nossas vidas, e ela passa a ser governada pelo destino. Esta é a maior mentira do mundo.
— Comigo não aconteceu isto — disse o rapaz. — Queriam que eu fosse padre, e eu resolvi ser pastor.
— Assim é melhor — disse o velho. — Porque você gosta de viajar.
«Ele adivinhou meu pensamento», refletiu o rapaz.
O velho, entretanto, folheava o livro grosso, sem a menor intenção de devolvê-lo.
