
O rapaz notou que ele vestia uma roupa estranha; parecia um árabe, o que não era raro naquela região. A África ficava a apenas algumas horas da Tarifa; e era só cruzar o pequeno estreito num barco.
Muitas vezes apareciam árabes na cidade, fazendo compras e rezando orações estranhas várias vezes por dia.
— De onde é o senhor? — perguntou.
— De muitas partes.
— Ninguém pode ser de muitas partes — o rapaz falou. — Eu sou um pastor e estou em muitas partes, mas sou de um único lugar, de uma cidade perto de um castelo antigo. Ali foi onde nasci.
— Então podemos dizer que eu nasci em Salem.
— O rapaz não sabia onde era Salem, mas não quis perguntar para não sentir-se humilhado com a própria ignorância. Ficou mais algum tempo olhando a praça. As pessoas iam e vinham, e pareciam muito ocupadas.
— Como está Salem? — perguntou o rapaz, procurando alguma pista.
— Como sempre esteve.
Ainda não era uma pista. Mas sabia que Salem não estava em Andaluzia. Senão, ele já a teria conhecido.
— E o que você faz em Salem? — insistiu.
— O que faço em Salem? — o velho pela primeira vez deu uma gostosa gargalhada.
— Ora, eu sou o Rei de Salem!
As pessoas dizem coisas muito estranhas, pensou o rapaz. Às vezes é melhor estar com as ovelhas, que são caladas, e apenas procuram alimento e água. Ou é melhor estar com os livros, que contam estórias incríveis sempre nas horas que a gente quer ouvir.
Mas quando a gente fala com pessoas, elas dizem certas coisas e ficamos sem saber como continuar a conversa.
— Meu nome é Melquisedec — disse o velho. — Quantas ovelhas você tem?
— O suficiente — respondeu o rapaz. O velho estava querendo saber demais sobre sua vida.
— Então estamos diante de um problema. Não posso ajudá-lo enquanto você achar que tem ovelhas suficientes.
O rapaz se irritou. Não estava pedindo ajuda. O velho é que tinha pedido vinho, conversa, e livro.
