— Me devolva o livro — disse. — Tenho que ir buscar minhas ovelhas e seguir adiante.

— Me dê um décimo de suas ovelhas — disse o velho. — E eu lhe ensino como chegar até o tesouro escondido.

O rapaz tornou então a lembrar-se do sonho, e de repente tudo ficou claro. A velha não tinha cobrado nada, mas o velho — que era talvez seu marido — ia conseguir arrancar muito mais dinheiro em troca de uma informação que não existia.

O velho devia ser cigano também.

Antes que o rapaz dissesse qualquer coisa, porém, o velho abaixou-se, pegou um graveto, e começou a escrever na areia da praça.

Quando ele se abaixou, alguma coisa brilhou dentro do seu peito, com tanta intensidade que quase cegou o rapaz. Mas num movimento rápido demais para alguém de sua idade, tornou a cobrir o brilho com o manto. Os olhos do rapaz voltaram ao normal e ele pode enxergar o que o velho estava escrevendo.

Na areia da praça principal da pequena cidade, ele leu o nome do seu pai e de sua mãe.

Leu a história de sua vida até aquele momento, as brincadeiras de infância, as noites frias do seminário.

Leu o nome da filha do comerciante, que não sabia.

Leu coisas que jamais contara para alguém, como o dia em que roubou a arma do seu pai para matar veados, ou sua primeira e solitária experiência sexual.

«Sou o Rei de Salem», dissera o velho.

— Por que um rei conversa com um pastor? — perguntou o rapaz, envergonhado e admiradíssimo.

— Existem várias razões. Mas vamos dizer que a mais importante é que você tem sido capaz de cumprir sua Lenda Pessoal.

O rapaz não sabia o que era Lenda Pessoal.

— É aquilo que você sempre desejou fazer. Todas as pessoas, no começo da juventude, sabem qual é sua Lenda Pessoal.

Nesta altura da vida, tudo é claro, tudo é possível, e elas não têm medo de sonhar e desejar tudo aquilo que gostariam de ver fazer em suas vidas. Entretanto, à medida em que o tempo vai passando, uma misteriosa força começa a tentar provar que é impossível realizar a Lenda Pessoal.



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