Em centenas de maneiras Harlan considerou a sociedade defeituosa e conseqüentemente desejou uma Mudança de Realidade. Mais de uma vez ocorreu-lhe que sua própria presença no século, como um homem de outra época, poderia bifurcar sua história. Se sua presença se tornasse bastante importuna em algum ponto importante, um ramal diferente de possibilidade tornar-se-ia real, um ramal no qual milhões de mulheres em busca de prazer se encontrariam transformadas em mães verdadeiras e de coração puro. Elas estariam em uma outra Realidade com todas as lembranças que pertenciam a ela, incapazes de dizer, sonhar ou imaginar que já haviam sido qualquer coisa mais.

Infelizmente, para fazê-lo, teria de transpor os limites do mapa espaço-temporal, e isso era inconcebível. Mesmo que não fosse, transpô-los ao acaso poderia mudar a Realidade em diversas maneiras possíveis. Poderia ser piorada. Somente análise e Computação cuidadosas poderiam estabelecer adequadamente a natureza de uma Mudança de Realidade.

Externamente, quaisquer que fossem suas opiniões particulares, Harlan continuava sendo um Observador, e o Observador ideal era simplesmente um conjunto de feixes de nervos sensitivos ligado a um mecanismo de escrever relatórios. Entre a percepção e o relatório não devia haver intervenção da emoção.

Nesse aspecto, os relatórios de Harlan eram a própria perfeição.

O Computador Assistente Finge chamou-o após seu segundo relatório semanal.

— Congratulações, Observador — disse ele, com uma voz sem entusiasmo — pela organização e clareza de seus relatórios. Mas o que você realmente pensa?

Harlan buscou refúgio em uma expressão tão em branco, como se meticulosamente lascada da madeira nativa do século 95. — Não tenho opiniões pessoais quanto ao assunto — respondeu.

— Oh, vamos. Você é do século 95 e ambos sabemos o que isso significa. Certamente este século o perturba.



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