
— Como de costume, suas explicações são por demais engenhosas para serem verdadeiras. Embora só possamos imaginar sua existência, deve haver uma grande civilização por trás do supervisor: uma civilização que há muito, muito tempo, conheça a humanidade. O próprio Karellen deve nos vir estudando há séculos. Veja, por exemplo, seu domínio do inglês. Ele me ensinou a falá-lo idiomaticamente!
— Você já descobriu algo que ele não saiba?
— Oh, sim, muitas vezes, mas só coisas triviais. Acho que ele tem uma memória perfeita, mas há coisas que não se deu ao trabalho de aprender. Por exemplo, o inglês é a única língua que ele compreende inteiramente, embora nos últimos dois anos tenha me falado um bocado em finlandês, só para mexer comigo. E ninguém aprende finlandês de uma hora para outra! É capaz de citar grandes trechos do Kalevala, ao passo que eu me envergonho de confessar que só conheço uns poucos versos. Sabe também as biografias de todos os estadistas vivos e, às vezes, consigo identificar as referências que ele utilizou. Seu conhecimento de história e de ciência parece total: você sabe o quanto já aprendemos com ele. Entretanto, tomados um por um, não creio que seus dotes mentais estejam muito além do alcance humano. Só que nenhum homem poderia fazer todas as coisas que ele faz.
— É mais ou menos a conclusão a que eu também cheguei — concordou Van Ryberg. — Podemos especular a respeito de Karellen, mas no fim acabaremos fazendo sempre a mesma pergunta: por que diabo ele não se mostra? Enquanto isso não acontecer, continuarei com minhas teorias e a Liga da Liberdade continuará fulminando.
Deitou um olhar rebelde para o teto.
— Uma noite destas, senhor supervisor, espero que algum repórter pegue um foguete para sua nave e entre pela porta dos fundos, com uma câmera. Que furo não seria!
Se Karellen estava escutando, não deu qualquer sinal. Mas a verdade é que nunca dava.
No primeiro ano de sua chegada, o advento dos Senhores Supremos tinha feito menos diferença do que seria de esperar para a vida dos humanos.
