
— Tem havido muitas lendas, sugerindo que a Terra foi visitada no passado por outras raças.
— Eu sei. Li o relatório do Departamento de Pesquisas Históricas. Faz a Terra parecer a encruzilhada do universo.
— Pode ter havido visitas sobre as quais vocês nada sabem — disse Stormgren, ainda querendo jogar verde para colher maduro. — Embora isso não seja muito provável, pois vocês devem estar nos observando há milhares de anos.
— É, acho que não — replicou Karellen, fazendo o possível para não ajudar. Foi então que Stormgren tomou uma decisão.
— Karellen — disse ele, abruptamente —, vou redigir a declaração e enviá-la para que você a aprove. Mas reservo-me o direito de continuar a aborrecê-lo e, se vir uma oportunidade, farei o possível por descobrir seu segredo.
— Sei muito bem disso — retrucou o supervisor, com uma risada.
— E não se incomoda?
— Em absoluto, embora não tolere armas nucleares, gás venenoso ou qualquer outra coisa que possa pôr em risco nossa amizade.
Stormgren ficou pensando se Karellen teria desconfiado de algo. Por trás dos gracejos do supervisor, reconhecera uma nota de compreensão, ou mesmo — quem poderia dizer? — de encorajamento.
— Fico satisfeito de saber — replicou Stormgren, no tom de voz mais indiferente que conseguiu arrumar. Levantou-se, pondo ao mesmo tempo para baixo a tampa da maleta e fazendo o polegar deslizar pelo fecho.
— Vou fazer logo a minuta da declaração — repetiu — e mandá-la mais tarde, ainda hoje, pelo teletipo.
Enquanto falava, apertou o botão — e viu que todos os seus temores tinham sido infundados. Os sentidos de Karellen não eram mais sutis que os do homem. O supervisor não podia ter detectado nada, pois não houve mudança alguma em sua voz, ao se despedir e dizer as palavras em código que abriam a porta da câmara.
Mesmo assim, Stormgren sentia-se como um cleptomaníaco, saindo de uma loja de departamentos sob o olhar do detetive, e deu um grande suspiro de alívio quando a porta se selou atrás dele.
