
O chão deveria ter estalado e estremecido sob o tremendo peso, mas a nave continuava presa às forças que lhe permitiam andar por entre as estrelas, e pousou tão suavemente como se fosse um floco de neve.
A parede curva, vinte metros acima do chão, deu a impressão de tremular e ondular: onde antes houvera uma superfície lisa e reluzente, aparecera uma grande abertura. Nada era visível dentro dela, mesmo aos olhos perscrutado-res das câmeras. Estava tão escuro quanto a entrada de uma caverna.
Uma escada larga e brilhante saiu do orifício e avançou na direção do solo. Parecia uma folha sólida de metal, com corrimãos de cada lado. Não tinha degraus; era inclinada e lisa como um escorregador e parecia impossível subi-la ou descê-la de maneira comum.
O mundo inteiro tinha os olhos fixos naquele pórtico escuro, esperando que algo aparecesse. Foi então que a voz, raramente ouvida, mas inesquecível, de Karellen ergueu-se de algum ponto escondido. Sua mensagem não poderia ser mais inesperada:
— Estou vendo algumas crianças aos pés da escada. Gostaria que duas delas subissem ao meu encontro.
Houve um momento de silêncio. Depois, um menino e uma menina saíram da multidão e encaminharam-se, com a maior naturalidade, para a escada e rumo à história. Outras os seguiram, mas pararam ao ouvir Karellen dizer, com uma risada:
— Duas serão suficientes.
Desejosas de aventura, as duas crianças — que não teriam mais que seis anos de idade — pularam sobre a plataforma de metal. Foi então que aconteceu o primeiro milagre.
Acenando alegremente para a multidão e para os pais aflitos — que, demasiado tarde, tinham provavelmente se lembrado da lenda do flautista de Hammelin — as crianças começaram a subir rapidamente a íngreme encosta. Mas suas pernas não se mexiam e logo se tornou claro que seus corpos estavam inclinados em ângulo reto com a estranha prancha, que parecia ter uma gravidade própria, capaz de neutralizar a da Terra. As crianças estavam ainda gozando aquela estra- nha experiência e imaginando o que as estaria atraindo para cima, quando desapareceram no interior da nave.
