
O crime praticamente desaparecera. Tornara-se ao mesmo tempo desnecessário e impossível. Quando ninguém sente falta de nada, não há por que roubar. Além do mais, todos os criminosos em potencial sabiam que não conseguiriam escapar à vigilância dos Senhores Supremos. Nos primeiros tempos de seu domínio, eles haviam interferido de maneira tão eficaz em favor da lei e da ordem, que a lição nunca mais fora esquecida.
Os crimes passionais, embora não inteiramente extintos, eram quase desconhecidos. Com a remoção de grande parte de seus problemas psicológicos, a humanidade estava muito mais sensata e menos irracional. O que nas eras anteriores se chamaria vício, agora não passava de excentricidade
— ou, na pior das hipóteses, maus costumes.
Uma das mudanças mais notáveis fora uma diminuição do ritmo louco que caracterizara o século XX. A vida era mais calma do que tinha sido durante gerações e gerações. Conseqüentemente, tinha menos atrativos para alguns, porém mais tranqüilidade para a maioria. O homem ocidental reaprendera — o que o resto do mundo jamais esquecera — que o ócio não era pecado, desde que não degenerasse na preguiça.
Fossem quais fossem os problemas que o futuro pudesse trazer, o tempo ainda não pesava nas mãos da humanidade. A educação era muito mais profunda e demorada. Poucas pessoas terminavam os estudos antes dos vinte — e esse era apenas o primeiro estágio, pois normalmente voltavam aos vinte e cinco para mais três anos, depois que as viagens e a experiência lhes tivessem alargado a mente. Além disso, a maioria seguia cursos de atualização durante toda a vida, sobre os assuntos que mais lhes interessavam.
Essa extensão do aprendizado para além do início da maturidade física propiciara muitas mudanças sociais. Algumas eram necessárias havia gerações, mas preferira-se, até então, ignorá-las ou fingir que não se precisava delas. Em particular, os hábitos sexuais — bem como a atitude para com eles — haviam sofrido uma alteração radical, graças a duas invenções, ambas, por ironia, de origem puramente humana, nada devendo aos Senhores Supremos.
