Suas pedras desgastadas sustentavam viçosas florestas em miniatura, bem acima dos telhados da cidade. Espécies inteiras de besouros e pequenos mamíferos haviam desenvolvido ali, e, como era raro que as pessoas fossem ao topo, por causa da perturbadora tendência de a torre balançar ao vento, os corvos tinham tudo para si. Naquele instante, estavam voando em estado de grande agitação, como mosquitos antes da chuva. Talvez fosse boa idéia alguém lá de baixo notá-los.

Algo terrível estava para acontecer.

Você já sentiu, não sentiu?

Você não é o único.

— O que deu neles? — gritou Rincewind, mais alto que a barulheira.

O bibliotecário agachou quando um livro mágico de capa de couro saltou da prateleira e parou em pleno ar, preso pela corrente. Então, o funcionário deu um pulo, rolou no chão e debruçou-se sobre uma cópia de A Descobherta de Maleficio sobre Dhemonologia, que vinha diligentemente golpeando a própria estante.

— Oook! — exclamou.

Rincewind tinha o ombro apoiado numa estante e empurrava com os joelhos os livros agitados de volta a seus lugares. O barulho era infernal.

Os livros de magia têm uma espécie de vida própria. Alguns têm em excesso: por exemplo, a primeira edição do Necrotelicomicon precisa ser mantida em armadura de ferro, A Verdadeira Arte de Levitatione passou os últimos 1 50 anos nos caibros do telhado, e o Compêndhio de Magia Sehxual de Ge Fordge é conservado em uma cuba de gelo, sozinho numa sala. Existe uma norma rígida de que ele só pode ser lido por magos que estejam com mais de 80 anos e, se possível, mortos.

Mas mesmo os incunábulos e livros mágicos do dia-a-dia que ficavam nas prateleiras principais estavam inquietos e nervosos feito galinha ao ouvir o som de arranhões na porta do galinheiro. Das capas fechadas, vinha o som abafado de garras.



10 из 238