
— O que você disse? — berrou Rincewind.
— Oook!
— Certo!
Rincewind, como bibliotecário-assistente honorário, não havia progredido muito além da classificação básica e da arte de pegar bananas, e admirava-se com a desenvoltura do bibliotecário ao andar por entre as estantes trepidantes, ora correndo a mão negra por uma capa estremecida, ora reconfortando a enciclopédia assustada com suaves murmúrios simiescos.
Depois de um tempo, a biblioteca começou a se acalmar, e Rincewind sentiu os músculos do ombro relaxarem.
Era uma paz frágil, porém. Aqui e ali, uma página se agitava. De prateleiras distantes, surgia o estalido ameaçador de uma lombada. Depois do pânico inicial, a biblioteca agora se encontrava alerta e irrequieta como gato de rabo comprido em fábrica de cadeira de balanço.
O bibliotecário retornou vagarosamente pelo corredor. Ele tinha um rosto que só uma roda de caminhão saberia amar e exibia permanentemente um sorriso vago, mas, pela maneira como o macaco rastejou para debaixo da mesa e escondeu a cabeça no cobertor, Rincewind teve a impressão de que ele estava terrivelmente preocupado.
Observe Rincewind espiando as prateleiras sombrias. Existem oito níveis de magia no Disco. Depois de dezesseis anos, Rincewind não conseguiu chegar nem ao primeiro. Na verdade, alguns mestres consideram-no incapaz até mesmo de alcançar o nível zero, no qual nasce a maioria das pessoas. Em outras palavras, já foi sugerido que, quando Rincewind morrer, a capacidade sobrenatural média da raça humana vai subir um ponto.
Ele é alto, magro e tem aquele tipo de barba disforme usado por homens que não foram feitos para usar barba. Está vestido com um manto vermelho-escuro que já viu dias melhores, possivelmente décadas melhores. Mas sabemos que é mago porque tem o chapéu pontudo de aba mole, com a palavra “Maggo” bordada em grandes letras prateadas por alguém cujo talento em bordar consegue ser pior que o talento em soletrar. Há uma estrela na ponta. A maior parte das lantejoulas se perdeu.
