
Firmando o chapéu na cabeça, Rincewind abriu a grande porta antiga da biblioteca e saiu para a luz dourada da tarde. Tudo era silêncio, quebrado apenas pela grasnada histérica dos corvos que rondavam a Torre de Arte.
Rincewind observou-os durante algum tempo. Os corvos da Universidade eram um bando de aves duronas. Não era qualquer coisa que os perturbava.
Todavia…
… o céu estava azul, com raios dourados e algumas nuvens fofas no alto, brilhando rosadas sob a luz crescente. No pátio, os velhos castanheiros encontravam-se em flor. Da janela aberta, vinha o som de algum aluno de magia treinando violino, sem muito êxito. Não era o que se poderia chamar de tempo sinistro.
Rincewind apoiou-se na parede de pedras. E gritou.
O prédio estava tremendo. Ele sentiu o tremor entrar pela mão e percorrer o braço — uma leve sensação rítmica na freqüência exata para sugerir terror incontrolável. As próprias pedras estavam com medo.
Apavorado, olhou para baixo ao ouvir um tinido. O bueiro caiu para trás e um dos ratos da Universidade enfiou os bigodes para fora. O bicho dirigiu um olhar assustado para Rincewind e passou correndo por ele, seguido por dezenas de sua espécie. Alguns vestiam roupa, mas isso não era incomum na Universidade, onde o alto nível de magia faz maravilhas com os genes.
Correndo os olhos ao redor, Rincewind viu procissões de corpos cinzentos abandonando a Universidade de todos os outros bueiros. A hera próxima ao seu ouvido farfalhou, e então um grupo de ratos executou uma série de saltos mortais até seus ombros e desceu escorregando pelo manto. Ignoraram-no por completo, mas, novamente, isso não era incomum. A maioria dos seres vivos costumava ignorar Rincewind.
Ele se virou e correu para a Universidade, com o manto esvoaçando em torno dos joelhos, até alcançar o gabinete do tesoureiro. Bateu à porta, que se abriu rangendo.
