
Morte cutucou a vara. Ela estalou, e centelhas correram obscenamente em toda a sua extensão.
Por estranho que pareça, ele não estava com muita raiva. A raiva é urna emoção e, para sentir emoção, são necessárias glândulas. Morte nem sequer sabia de glândulas, e precisava de um bom motivo para ficar com raiva. Mas estava ligeiramente irritado. Suspirou outra vez. As pessoas sempre tentavam esse tipo de coisa. Por outro lado, era algo até interessante de se observar, e esta tentativa, pelo menos, era um pouco mais original do que o clássico e simbólico jogo de xadrez, que Morte detestava porque nunca se lembrava de como o cavalo se movia.
— VOCÊ SÓ ESTÁ ADIANDO O INEVITÁVEL — argumentou.
— Viver é isso.
— MAS O QUE, EXATAMENTE, VOCÊ PRETENDE?
— Quero ficar ao lado do meu filho. Quero ensiná-lo, mesmo que ele não o saiba. Vou guiar sua mente. E, quando estiver pronto, conduzirei seus passos.
— ENTÃO, ME DIGA — disse Morte — COMO FOI QUE VOCÊ CONDUZIU 0S PASS0S DE SEUS OUTROS FILHOS.
— Dirigi-os para fora de casa. Eles discutiam comigo, não queriam ouvir o que eu tinha a ensinar. Mas este aqui vai.
— VOCÊ ACHA UMA BOA IDÉIA?
A vara ficou quieta. Ao lado dela, o menino sorriu ao som da voz que somente ele escutava.
Não havia nenhuma analogia possível para o modo como Grande A’Tuin, a tartaruga estelar, avançava na noite galáctica. Quando temos 16 mil quilômetros de comprimento e uma carapaça cheia de crateras meteóricas, coberta por gelo de cometas, não existe absolutamente nada com que possamos realmente nos parecer, a não ser nós mesmos.
Portanto, Grande A’Tuin nadava devagar pelo abismo interestelar, simplesmente como a maior tartaruga que já existiu, levando em sua carapaça os quatro elefantes enormes que sustentavam em seu lombo o vasto e brilhante círculo, contornado pela queda d’água, do Discworld. Que existe por causa de um desvio impossível na curva da probabilidade, ou porque os deuses gostam mesmo de uma boa piada, como todo mundo.
