
Na verdade, a grande maioria das pessoas.
Próximo às margens do Mar Círculo, na antiga e desordenada cidade de Ankh-Morpork, numa almofada de veludo, sobre uma prateleira na Universidade Invisível, havia um chapéu.
Era um bom chapéu. Um chapéu magnífico.
Era pontudo, evidentemente, e tinha a aba mole e larga, mas, depois de conceber esses detalhes básicos, o designer havia realmente se dedicado com afinco ao trabalho. Havia rendas douradas, pérolas, peles dos melhores crudelarminhos
Como naquele momento elas não se encontravam num campo de magia intensa, não estavam brilhando e pareciam apenas diamantes inferiores.
A primavera havia chegado a Ankh-Morpork. Não era perceptível de imediato, mas havia sinais óbvios para os entendidos. Por exemplo, a espuma do Rio Ankh — esse grande canal de águas lentas que servia à cidade gêmea como represa, esgoto e, freqüentemente, necrotério — havia ganhado um tom esverdeado iridescente. Os embriagados telhados da cidade revelavam colchões e travesseiros, já que a roupa de cama de inverno era colocada para arejar à luz fraca do sol, e, nas profundezas de porões bolorentos, vigas estalavam à medida que a seiva seca reagia ao chamado primitivo da floresta. Os pássaros aninhavam-se entre as calhas e os beirais da Universidade, embora fosse visível que, por maior que fosse a aglomeração em algumas áreas, eles jamais faziam ninho nas convidativas bocas abertas das gárgulas alinhadas nos telhados, para decepção delas.
Uma espécie de primavera havia chegado até mesmo à própria Universidade. Aquela era a Noite dos Pequenos Deuses, e um novo arqui-reitor seria eleito.
Bem, não exatamente eleito, porque os magos não queriam nem saber dessa história indigna de eleição e era fato conhecido de todos que o arqui-reitor se fazia escolher pela vontade dos deuses. Naquele ano, tudo indicava que os deuses conseguiriam escolher Virrid que era um sujeito decente e, havia anos, vinha esperando pacientemente a sua vez.
