
Voltei-me rapidamente: outro corredor, faixas brancas como leite a descer. O corrimão da escada rolante era macio, tépido. Não contei os andares por que passei. Mais e mais gente que parava defronte de caixas de esmalte que saíam da parede a cada passo. Tocavam com um dedo e caía-lhes na mão qualquer coisa quemetiam na algibeira antes de continuarem o seu caminho. Não sei porquê, fiz exactamente a mesma coisa que o homem de casaco solto, cor de violeta, que ia à minha fiente: premi uma chave com uma pequena depressão para a ponta do dedo e caiu-me na mão um tubo colorido, translúcido e ligeiramente quente. Sacudi-o e cheguei-o a um olho. Qualquer espécie de pílulas? Não. Um frasquinho? Não tinha rolha. Para que servia? Que faziam as outras pessoas? Metiam o objecto nas algibeiras. No distribuidor lia-se uma palavra: largan. Fiquei parado. Fui empurrado. Senti-me de súbito como um macaco a quem tivessem dado uma caneta de tinta permanente ou um isqueiro. Apoderou-se de mim uma cólera cega. Cerrei os dentes, semicerrei os olhos e, de ombros inclinados para a frente, juntei-me à multidão de peões. O corredor alargou e transformou-se num átrio. Letras luminosas: REAL AMMO REAL AMMO.
Por cima da cabeça das pessoas apressadas, do outro lado da turba, vi uma janela, ao longe. A primeira janela. Panorâmica. Enorme.
Todos os firmamentos da noite reunidos num plano horizontal. Num horizonte de névoas luminosas — galáxias coloridas de quadrados, aglomerados de luzes espirais, clarões a tremeluzir sobre arranha-céus, as ruas: um rastejar, uma penstalase; com colares de luz e, por cima disso, na perpendicular, caldeirões de néon, coroas de penas e faíscas, círculos, aeroplanos e garrafas de chamas, dentes-de-leão vermelhos feitos de minúsculas luzes de sinalização, sóis momentâneos e hemorragias de anúncios mecânicos e violentos. Parei a olhar, enquanto ouvia atrás de mim o pisar firme de centenas de pés. De súbito, a cidade desapareceu e surgiu uma cara enorme, com três metros de altura.