
«— Estiveram a ver passagens de noticiários da década de 70 da série Vistas de Antigas Capitais. Agora as notícias. O Transtel está a expandir-se a fim de abranger estúdios cósmicos…»
Fugi, a bem dizer. Não se tratava de nenhuma janela. Era um écran de televisão. Estuguei o passo, a transpirar um pouco.
Desci. Mais depressa. Quadrados dourados de luzes. No interior, multidões, espuma em copos, um líquido quase preto — não era cerveja, com a sua virulenta cintilação esverdeada — e gente nova, rapazes e raparigas de braço dado, em grupos de seis e oito a bloquear toda a via, vindo na minha direcção. Tiveram de se separar para me deixar passar. Fui empurrado. Sem me aperceber, entrei num passadiço em movimento. Muito perto de mim passou um par de olhos assustados — uma encantadora rapariga escura vestindo qualquer coisa que brilhava como metal fosforizado. O tecido agarrava-se-lhe ao corpo, era como se estivesse nua. Rostos brancos, amarelos, alguns pretos altos — mas eu continuava a ser o mais alto. As pessoas abriam caminho para eu passar. Muito alto, atrás de janelas convexas, passavam sombras dispersas e tocavam orquestras invisíveis, mas ali prosseguia um passeio curioso. Nas passagens escuras, as silhuetas sem cabeça de mulheres: os tufos que lhes cobriam os braços emanavam uma luz, de modo que só se lhes viam os pescoços erguidos, como estranhos Scífloa brancos, e o brilho difuso do cabelo — um pó luminescente? Um corredor estreito levou-me a uma série de salas com estátuas grotescas, porque em movimento, activas, mesmo; uma espécie de rua larga, com os lados elevados, vibrava de riso. As pessoas divertiam-se. Mas que as divertia? As estátuas?
Enormes figuras em cones de luz de projectores; deles corria luz cor de rubi, cor de mel e espessa como xarope, uma invulgar concentração de cores. Continuei a andar passivamente, a semicerrar os olhos, distraído.
