
Não sabia para onde olhar. À minha frente estava um homem que vestia qualquer coisa fofa, como peles, mas que, quando tocada pela luz, opalescia como metal. Levava pelo braço uma mulher de escarlate. O vestuário de lã era todo em grandes olhos, como os ocelos dos pavões, mas que pestanejavam. Não se tratava de nenhuma ilusão, os olhos do vestido dela abriam-se e fechavam-se, realmente. A faixa onde me encontrava, atrás do referido casal e entre uma dúzia de outras pessoas, adquiriu velocidade. Entre superfícies de vidro branco-fumo abriram-se passeios coloridos e iluminados com tectos tansparentes, tectos continuamente pisados por centenas de pés, no andar de cima. O rugido circundante ora alastrava, ora ficava confinado, à medida que milhares de vozes humanas e sons — sem significado para mim, cheios de significado para eles — eram engolidos por cada túnel sucessivo daquela viagem, cujo destino eu ignorava. Ao longe, o espaço circundante continuava a ser trespassado pelos sulcos de veículos para mim desconhecidos — aeronaves, provavelmènte, já que de vez em quando subiam ou desciam, a descrever espirais no espaço, de tal modo que eu esperava automaticamente assistir a um terrível despenhamento, pois não via fios-guia nem carris, que existiriam no caso de se tratar de comboios elevados. Quando os foscos ciclones de movimento se interrompiam por instantes, por trás deles emergiam, majestosamente lentas, imensas superfícies cheias de gente, como estações voadoras, que seguiam em várias direcções, passavam umas pelas outras, subiam e pareciam fundir-se entre si por truques de perspectiva. Era difícil descansar os olhos em qualquer coisa que não estivesse em movimento, pois a arquitectura de todos os lados parecia consistir somente em movimento, em mudança, e até o que eu iniciamente tomara por um tecto abobadado eram apenas patamares sobrepostos, patamares que cediam o lugar a outros patamares e níveis mais elevados.
