De súbito, um vivo clarão purpúreo, como se um incêndio atómico tivesse deflagrado algures, muito longe, no coração do edifício, filtrou-se através do vidro dos tectos, daquelas misteriosas colunas, e foi reflectido pelas superfícies prateadas. Foi como sangue a correr para todos os cantos, para os interiores das galerias que passavam e para as feições das pessoas. O verde dos néons incessantemente a pulsar tornou-se deslavado; o tom leitoso dos arçobolantes, parabólicos ficou rosado. Naquela súbita saturação do ar de vermelho havia como que um presságio de catástrofe, ou pelo menos assim me pareceu; mas ninguém prestou a mínima atenção à mudança e eu nem saberia dizer quando se dissipou.

Aos lados da nossa rampa apareceram revoluteantes círculos verdes, como anéis de néon suspensos no ar, e nessa altura algumas das pessoas desceram para o desdobramento de outra rampa ou de outro caminho que se aproximava. Reparei que se podia passar livremente pelas linhas verdes daquelas luzes, como se elas não fossem materiais.

Durante um bocado, deixei-me ser transportado pelo passadiço branco, até me acudir a ideia de que talvez já estivesse fora da estação e aquele fantástico panorama de vidro inclinado que parecia sempre na eminência de voo fosse de facto a cidade — e de que a cidade que eu deixara já só existia na minha memória.

— Desculpe… — murmurei, e toquei no braço do homem vestido de peles. — Onde estamos?

Olharam-me ambos. Os seus rostos, quando os levantaram, apresentaram uma expressão assustada. Acalentei a ténue esperança de que isso se devesse apenas à minha altura.

— Estamos no poliduto — respondeu o homem. — Qual é o seu desvio?

Não compreendi.

— Estamos… ainda estamos na estação?

— Obviamente — respondeu-me o homem, com certa cautela.

— Mas… onde fica o Círculo Interior?

— Já o deixou passar. Agora terá de retroceder.



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