
contrastando com os cabelos e bigode artificialmente tingidos de negro, encontrava-se de pé, em frente a sua cama. A seu lado, um jovem estagiário segurava uma prancheta, e tomava notas.
— Há quanto tempo estou aqui? — perguntou, notando que falava com uma certa dificuldade, sem conseguir pronunciar direito as palavras.
— Duas semanas neste quarto, depois de 5 dias na Unidade de Emergência — respondeu o mais velho. — E dê graças a Deus por ainda estar aqui.
O mais jovem pareceu surpreso, como se esta última frase não combinasse exatamente com a realidade. Veronika, de imediato, notou sua reação, e seus instintos se aguçaram: tinha ficado mais tempo? Ainda estava correndo algum risco? Começou a prestar atenção em cada gesto, cada movimento dos dois; sabia que era inútil fazer perguntas, eles jamais diriam a verdade — mas, se fosse esperta, podia entender o que estava acontecendo.
— Diga seu nome, endereço, estado civil, e data do nascimento — continuou o mais velho.
Veronika sabia seu nome, seu estado civil, e sua data de nascimento, mas reparou que havia espaços em branco em sua memória: ela não conseguia lembrar direito o endereço.
O médico colocou uma lanterna em seus olhos, e examinou-os prolongadamente, em silencio. O mais jovem fez a mesma coisa. Os dois trocaram olhares, que não significavam absolutamente nada.
— Você disse para a enfermeira da noite que não sabíamos ver sua alma? — perguntou o mais moço.
Veronika não se lembrava. Tinha dificuldades em saber direito quem era, e o que estava fazendo ali.
— Você tem sido constantemente induzida ao sono através de calmantes, e isso pode afetar um pouco a sua memória. Por favor, tente responder tudo o que perguntarmos.
E os médicos começaram um questionário absurdo, querendo saber quais os jornais importantes em Lubljana,quem era o poeta cuja estátua está na praça principal (ah, aquilo ela não esqueceria nunca, todo esloveno traz a imagem de Preseren gravado na alma), a cor do cabelo de sua mãe, o nome dos amigos de trabalho, os livros mais retirados da biblioteca.
