
— Que foi? Não serve? — interrogou minha mãe, entre ansiosa e agressiva.
Ele respondeu sem sequer olhar para ela, ao mesmo tempo que remexia nos bolsos em busca da cigarreira.
— Não. Não serve.
Eu bem sabia que quando minha mãe falava com aquele tom de voz tentava provocar uma discussão. Para evitar isso puxei-a por um braço. Mas ela afastou-me com um safanão e, fixando no director um olhar chamejante, repetiu, já em voz mais forte:
— Não serve? Não? E poderá saber-se porquê? Entretanto o director tinha encontrado os cigarros e procurava os fósforos.
Devido à sua gordura cada um dos seus gestos parecia custar-lhe um enorme esforço. Apesar de ofegante, foi com grande tranquilidade que respondeu:
— A tua filha nem tem físico de bailarina nem tem a menor queda para a dança. Por isso que não serve.
Como eu calculava, minha mãe desatou nas suas habituais considerações. Que eu era uma autêntica beleza, que tinha um rosto de Madona, que não havia pernas, nem ancas, nem seios mais belos do que os meus. Calmamente, continuando a fumar o seu cigarro, o director observava-a e esperava que ela se calasse. Depois disse na sua voz contrariada e um pouco chorona:
— Dentro de dois anos a tua filha poderá talvez dar uma boa ama de leite. Uma bailarina nunca!
O pobre homem não sabia de que extremos de violência minha mãe era capaz. O seu pasmo foi tão grande que deixou cair o cigarro e ficou de boca aberta. Minha mãe era magra e de aspecto frágil, de modo que ninguém compreendia onde ela ia buscar tanta cólera e uma voz tão forte. Atirou-lhe à cara, dirigidas a ele e às bailarinas que tínhamos visto no corredor, quantas injúrias sabia. Depois, agarrando nos cortes de seda que ele lhe confiara para ela fazer camisas, arremessou-os ao chão gritando:
